Gloria e Flamengo privatizados. Cidade de quem?

 A paisagem da Glória, do Aterro e da Praia do Flamengo sempre vendeu a imagem de um Rio democrático: espaço aberto, horizonte livre, gente diversa ocupando o que é, em tese, de todos. Mas essa ideia vem sendo discretamente desmontada, não com britadeiras, mas com grades, credenciais e “eventos exclusivos”.

Nos últimos anos, a prefeitura tem demonstrado uma curiosa generosidade ao permitir que empresas privadas se apropriem desses espaços públicos sob o pretexto de “revitalização”, “ativação urbana” ou qualquer outro eufemismo que soe moderno o suficiente para não soar como privatização disfarçada. Na prática, o que se vê é um processo contínuo de cerceamento: áreas antes livres passam a ter acesso controlado, eventos pagos substituem o uso espontâneo, e o cidadão comum vira um mero figurante que paga impostos, quando não é simplesmente convidado a se retirar.

A Marina da Glória talvez seja o exemplo mais didático dessa lógica. O espaço, que deveria funcionar como equipamento público integrado ao Aterro, tornou-se um palco recorrente de eventos privados, muitos deles inacessíveis à população que, ironicamente, financia sua manutenção. Festas corporativas, casamentos de alto padrão, feiras elitizadas: tudo muito bem organizado, iluminado e… fechado. Sempre há uma cerca, uma lista, um “não pode entrar”. A vista continua pública, mas o acesso, cada vez menos.

E não se trata apenas da marina. O entorno acompanha a tendência. O Aterro do Flamengo, um dos maiores parques urbanos do país, vira frequentemente extensão desses eventos, com montagens que ocupam áreas significativas por dias (às vezes semanas) limitando o uso pleno por quem só quer caminhar, pedalar ou simplesmente existir ali sem pagar ingresso. A Praia do Flamengo, por sua vez, segue sendo cenário, mas também começa a sentir o peso dessa lógica de ocupação seletiva.

Como se não bastasse a ocupação física, há também a ocupação sonora, menos visível, mas igualmente invasiva. Os eventos que se multiplicam na região frequentemente avançam madrugada adentro, com sistemas de som potentes que atravessam o parque e invadem as janelas dos moradores da Glória e do Flamengo. O direito ao lazer de alguns passa a significar a privação do descanso de outros. E aqui a ironia beira o deboche: enquanto se vende a imagem de uma cidade vibrante e “ativa”, quem vive ali convive com uma rotina de barulho constante, testes de som intermináveis e noites interrompidas. A cidade que não dorme, nesse caso, não é escolha, é imposição!

O discurso oficial insiste em falar de benefícios econômicos, turismo e dinamização da cidade. Mas raramente se fala de quem fica de fora. Ou melhor: de quem é empurrado para fora de um espaço que já é seu por direito — seja pela cerca física, seja pela cerca sonora. Porque, no fim, a conta é simples: quando o público vira privado com aval do poder público, o que se perde não é só acesso - é o próprio sentido de cidade.

O mais curioso (ou talvez previsível) é como esse processo se naturaliza. Aos poucos, a grade vira parte da paisagem, o evento fechado vira rotina, e o barulho vira pano de fundo obrigatório. E a ideia de que aquele espaço poderia ser plenamente livre - e minimamente respeitoso com quem mora ao redor - começa a soar ingênua.

No fim das contas, a pergunta que fica é simples, ainda que incômoda: a quem pertence a cidade? Porque, pelo que se vê na Glória e no Flamengo, a resposta anda cada vez mais restrita — e bem cercada. E, ao que tudo indica, também bem amplificada.

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